Napoli, amor ou ódio

Ao sair do trem em Napoli Centrale, ouvi o som de um piano tocando ao longe. Algumas vozes acompanhavam algo que parecia ser uma canção antiga. Cheguei mais perto, e vi jovens e velhos ao redor do piano da estação, compartilhando o que tinham em comum: um sentimento intenso pelo que cantavam.

E assim são os napolitanos: Intensos em tudo. Na comida extraordinária, no trânsito caótico, na hospitalidade amável, nas conversas aos berros, nos becos desajeitados… Em tudo que se vê, Napoli é intensa, é louca, e por isso mesmo é fácil de ser ou amada, ou odiada.

No início, achei que fosse odiá-la. Na primeira vez que passei por ela, apenas uma conexão entre um trem e um barco há 3 anos, minha impressão foi horrível! Quando soube que teria que voltar a Napoli para requerer o reconhecimento da minha cidadania aqui, bateu uma ponta de decepção – aquela cidade louca e feia, oh céus! Além disso, pra qualquer pessoa que eu dizia no norte do país que estava vindo para Napoli, a reação imediata era: “Napoli??? Meus Deus, por que você quer ir pra Napoli?” E em seguida argumentavam que a cidade era muito perigosa, cheia de mafiosos, ladrões e trambiqueiros.

 

Estação Toledo, na linha 1, faz do metrô uma obra de arte.

 

O centro histórico de Napoli é patrimônio mundial da Unesco

 

E aí, chego na estação ao som de um piano. Quase tiro o celular da bolsa pra filmar a cena fantástica que via, mas me lembrei das orientações que recebi sobre onde estava. Ao mesmo tempo, passei a dar uma chance para a cidade cuja estação de trem tem um piano e pessoas em volta cantando apaixonadamente.

Não me arrependi. Sim, ela é caótica, suja, desajeitada e cheia de mafiosos. Mas é deliciosa. Onde mais você poderia comer uma pizza como a que comi na Pizzeria da Michelle, ou o macarrão e queijo de búfala que almocei anteontem, ou os doces maravilhosos que namorei nas vitrines pela cidade? Não sou uma expert em Italia, mas me arrisco a dizer que aqui encontrei a melhor comida italiana dos séculos amém. Não deve ser coincidência que foi em Napoli onde se inventou a pizza: esse povo tem a mão cheia pra gastronomia.

 

Pizzeria da Michelle, famosa entre italianos e também turistas motivados pelo livro e filme Comer, rezar, amar

 

Foi em Napoli também que encontrei um povo receptivo, caloroso, amável. Como o rapaz da cozinha do hotel, que na segunda noite em que fui timidamente pedir água quente pra tomar um remédio, olhou pra mim e, antes que eu dissesse qualquer coisa, sorriu e disse: “acqua calda!” – e foi buscar imediatamente. Ao trazer o bule, ele se preocupou em me orientar que eu segurasse o bule de forma certa para não me queimar.

Em Napoli gastei menos que em Roma. Fiz amigos. Caminhei com tranquilidade (não, não me senti ameaçada, nem insegura, nem coagida). Recebi ajuda espontaneamente quando parei no meio da rua tentando me achar no mapa. Não me extorquiram dinheiro depois da tal ajuda (como eu temia). Recebi sorrisos de pessoas que tentavam entender o meu italiano errado.

 

Os doces perfumam a cidade. O mais tradicional é o Babá, um pãozinho encharcado em rum.

 

Enfim, Napoli segue a máxima do “ame-a ou deixe-a”. A julgar pelo que vivi nestes dias, eu amo. Mesmo assim, amanhã terei que deixá-la para seguir viagem 🙂

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10 opiniões sobre “Napoli, amor ou ódio”

  1. Adorei o texto e o título faz jus ” Amar ou Odiar”, é exatamente assim…. Mas ao menos, para nós, Napoli foi extremamente agradável e receptiva, pois foi em Napoli que nossa amizade se iniciou!!! ❤️

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